quarta-feira, 20 de junho de 2012

Sob goles e tragadas, permita-me a tristeza

Uma outra visão sobre o álcool, a descrimininalização das drogas e o vício em geral



Ah, não! Será este mais um texto com dezenas de argumentos díspares que separam os intelectualóides "pró-maconha" dos conservadores anti-legalização? Espero que não. Após acompanhar tantos textos, conferências, entrevistas, passeatas e, principalmente, a opinião popular no assunto, temo que dissertar sobre a descriminalização das drogas ou qualquer outro tema neste caminho possa cair, eventualmente, em uma mesmice pegajosa. Antes de tudo, gostaria de ressaltar que não pretendo dar suporte à nenhuma das premissas antes colocadas à tona pelos discursos já antigos, formados por um pequeno grupo de pessoas e reproduzidos à exaustão por seus pupilos nas redes sociais.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Matéria: O Solfejo coletivo da percussão


O solfejo coletivo da percussão

Sorocabanos integram grupo de percussão Tchá-Degga-Da, que inova em método de ensino coletivo

Luiz Fernando Toledo
 luiz.toledo@jcruzeiro.com.br


Não foi por acaso que o grupo de percussão Tchá-Degga-Da caiu nas graças da grande mídia nos últimos anos. Semifinalistas do programa "Qual é o seu talento", do SBT, aplaudidos em pé por toda a plateia do Domingão do Faustão no quadro "Se vira nos 30" e entrevistados no programa "Manhã Maior" da Rede TV, o grupo alcançou rapidamente o status de grande banda. Não só banda, como uma espécie de escola online de musicalização, que atingiu jovens dos quatro cantos do País. Com 11 componentes sorocabanos - três veteranos e oito que se uniram à equipe em 2011, tiveram destaque no jornal Cruzeiro do Sul na última semana ("Jovens sorocabanos estão na Seleção Brasileira de Percussão", 3 de fevereiro). O criador do grupo, o americano John Grant e sua esposa, Taciane, conversaram com a reportagem e contaram sobre o projeto inovador cujo nome remete a um rudimento (elemento básico) da percussão - Tchá-Degga-Da, uma espécie de onomatopeia, que na linguagem dos músicos, é chamada de "flam drag". 

"De onde vocês são?" é o questionamento que qualquer um tomaria como ponto de partida. A resposta não viria assim tão fácil: o divertido sotaque americano de John, mesclado à sonora fala carioca de sua esposa, já entregava a origem diversificada do grupo. "Somos de todo o Brasil", afirmou Taciane. Diferente do que foi repetido exaustivamente no Domingão do Faustão, Tchá-Degga-Da não pertence a Sorocaba. Trata-se de um projeto, criado pelo americano em 2005, que integra jovens de diversas regiões do País. A rotina dos músicos parece complexa: de tempos em tempos, John avisa em seu site oficial (http://drumline.com.br) que haverá um acampamento em uma determinada data e local. Os percussionistas, que partem do Rio de Janeiro, Paraná, Goiás, São Paulo e outros estados, se viram como podem para chegar ao encontro, onde passam dias ensaiando. Nessas reuniões, John e outros músicos dão aulas de percussão aos alunos mais novos e divulgam o trabalho na região em que ocorre o evento, para que outros também se interessem. Após essas convenções musicais, eles gravam tutoriais e criam vídeos no Youtube, divulgando o trabalho através das redes sociais e do site oficial, para que outros aprendam. John explica que os tutoriais são produzidos pelos próprios alunos, com um método de caráter social. "Se um cara que veio dos EUA chegar gravando vídeos mostrando sua técnica, ninguém vai se interessar. Agora, se eu mostrar um aluno que realmente aprendeu, o espectador vai pensar: "se ele consegue, eu também consigo", relata. 

Nos encontros seguintes, internautas que conheceram o grupo através dos vídeos acabam participando também. "Muitos acham que nós somos uma empresa grande, que tem escolas em outras cidades ou professores que recebem salário para ensinar. Não é nada disso, nosso projeto é totalmente independente e não possui renda própria", comenta John. Na realidade, o grupo se registrou como Organização Não-Governamental (Ong) há um ano. A impressão de grande se intensificou pela visibilidade nacional que atingiram após as apresentações na TV. Um dos objetivos do Tchá-Degga-Da é treinar uma seleção brasileira de percussão para competir em um tradicional evento nos Estados Unidos, que ocorre em abril - o Campeonato Mundial de Percussão Rudimentar (WGI). 

Para participar do grupo, basta querer. Taciane explica que não é preciso ter nenhuma noção musical. "Tivemos alunos que entraram sem conhecer nada de música, mas se interessaram tanto que hoje se profissionalizaram e estão no mercado de trabalho", comenta, satisfeita. 
foto par cruzeiro 2


Em Sorocaba

A relação do Tchá-Degga-Da com os sorocabanos se intensificou em outubro do ano passado, quando John foi chamado para treinar os percussionistas da Banda Marcial de Sorocaba (Bamaso). Muito antes disso, em 2006, três jovens da cidade já participavam dos acampamentos musicais e se apresentavam com o grupo: os veteranos Lucas dos Santos Bidoia, de 15 anos, Caio César Ayres de Moura, 17 anos e Renan Silva Proença, de 21 anos. Lucas, o prodígio da equipe, começou aos 9 anos e seu currículo já surpreende: aos 13 fez inscrição para o curso de percussão no Conservatório Musical de Tatuí e passou em primeiro lugar, à frente de mais de 100 concorrentes. Infelizmente, devido à sua idade, acabou não podendo assistir às aulas conquistadas. Agora ele estuda para fazer intercâmbio nos Estados Unidos e cursar a faculdade de música por lá.

Caio aprendeu a ler partituras com o Tchá-Degga-Da e sua opinião sobre a iniciativa é decisiva. "É um projeto que abre oportunidades para muitas pessoas", diz o aluno, que assim como Lucas, grava tutoriais para ajudar os mais novos.

Acampamentos 


O mosaico cultural do Tchá-Degga-Da é evidente nos acampamentos organizados por John Grant. Sem lugar espefício, os músicos precisam se virar - e muito - para chegar ao local combinado, normalmente na região sudeste, devido ao grande número de alunos. Já estiveram no Rio de Janeiro, em Limeira , Presidente Prudente, Lorena, Bauru, Santa Fé e outras cidades, totalizando mais de 40 encontros nos seis anos de existência do grupo. A duração dos encontros também varia, podendo ser um final de semana, ou um feriado prolongado de cinco ou seis dias. "Depende da disponibilidade dos participantes", explica Taciane.

Cada um contribui da forma que pode. "Alguns trazem comida, outros cozinham. Normalmente essa parte é minha, é a dificuldade de ser uma das poucas mulheres do grupo", ironiza Taciane, em tom de brincadeira. Os ensaios são intensos, e podem chegar a 14 horas diárias. "Nos vemos poucas vezes pessoalmente, temos que aproveitar todo o tempo disponível", justifica o sorocabano Caio. "Eu e o Lucas já chegamos a ficar 48 horas sem dormir, entre tocar e comer", comenta aos risos. Através de uma "tábua de estudo", uma espécie de tambor de borracha, que ameniza a altura do som, os alunos podem treinar os "rudimentos" ensinados nas aulas que ocorrem durante os encontros. Mesmo com a medida preventiva, o grupo recebe frequentemente reclamações dos vizinhos, por causa do barulho. "Quando nos encontramos, os ensaios ocorrem de manhã, à tarde, à noite e de madrugada, é difícil que eles (os vizinhos) entendam isso", diz a percussionista.

Projeção nacional 


"Um tal de SBT ligou dizendo que nós fomos chamados para uma audição", disse um receoso John, à sua esposa, em tom obviamente de dúvida, em meados de 2010. Ele não conhecia o canal. Na verdade, ainda não sabia do que se tratava, pois nunca foi de assistir televisão, nem quando morava nos EUA. O espanto foi tanto, que Taciane gritou em comemoração: "SBT? É televisão, John!". O integrante do grupo Zé Ricardo inscreveu o Tchá-Degga-Da no programa "Qual é o seu talento?", pelo site do SBT algumas semanas antes, e o resultado chegou. A maior dificuldade foi reunir o grupo rapidamente. Foram todos à casa de Lucas, em Sorocaba, que era o local mais próximo de São Paulo que conseguiriam se reunir. O lar do estudante se tornou um verdadeiro hotel, com colchões espalhados pela cozinha, sala, quartos, quinta, enfim, em todos os cantos. Após obter apoio da secretaria de educação de Sorocaba, conseguiram um ônibus que os levou até São Paulo.

"O Thomas (Roth, apresentador do programa) nos disse que foram selecionados 20 grupos, entre todo o material recebido pelo SBT. Desses 20, sete entrariam ao ar, provavelmente", conta John. O pessimismo se intensificou no pensamento do grupo: "Com certeza ficaremos entre os 13 que nem na TV aparecerão", lembra Taciane. Ao receber a classificação e chegarem até a semifinal do programa, todos se surpreenderam. "O Tcha-Degga-Dá não venceu, mas recebemos muitos elogios dos críticos do programa. Até o Arnaldo (Saccomani, apresentador) nos elogiou", brinca a percussionista.

No Domingão do Faustão, o momento foi breve, mas garantiu a ascensão artística do grupo. O percussionista da banda do programa, Marcus Cesar Modesto, rasgou elogios à apresentação, enaltecendo a qualidade particular dos músicos. Respondendo a uma indagação do Faustão, Modesto afirmou: "Aí não cabe músico mediano. Ou todos são bons, ou não rola. Eles têm que funcionar como um time". Um erro no cadastro dos participantes fez com que o apresentador exibisse o Tcha-Degga-Dá como um grupo de Sorocaba. A repercussão do "equívoco" em todo o país foi positiva para a cidade, e pertinente, agora que John realmente mora na cidade, e realiza o trabalho com a Bamaso. 

Dificuldades 


O projeto promissor de John Grant, apesar de já garantir qualidade técnica de seus músicos, ainda encontra resistência de patrocinadores. O músico lamenta alguns episódios sofridos pelo grupo, como quando foram prestigiados por uma famosa empresa de instrumentos musicais dos EUA, que prometeu fornecer equipamentos aos alunos, mas quando tentou contato com a filial brasileira, a proposta foi recusada. John também se preocupa com o preço e a qualidade dos instrumentos, que não se compara ao que é oferecido nos EUA. "O preço é absurdo. A baqueta que utilizamos, custa em média seis dólares em qualquer cidade americana. Por aqui, encontramos por, no mínimo, R$ 50", lamenta o percussionista. "O problema é ainda maior, se levar em consideração que nossos alunos são jovens, que ainda fazem ensino médio ou estão querendo fazer uma faculdade, e não trabalham para arcar com as despesas.", explica. John também chama a atenção para a forma como muitos percebem a música no Brasil: "Quando o filho tem 12 anos, os pais acham lindo que ele estude música. Mas aí chega a época do vestibular, e mesmo aquele aluno que deseja seguir carreira como músico, acaba tendo que partir para um curso mais tradicional, a pedido da família. Perdemos muitos músicos talentosos por essa questão cultural", desaponta-se.

Para organizar os acampamentos, cada um se vira como pode. Alguns vão ao encontro apenas com o dinheiro da ida, arriscando não ter como voltar depois. "Nós tentamos buscar patrocínio com empresas aéreas mas não obtivemos êxito. A dificuldade não é apenas financeira, mas de pessoas, em alguns casos. Não sabemos como redigir um projeto formal para apresentar às empresas, por exemplo", explica Taciane. Nos primeiros encontros, o próprio John montou alguns instrumentos, com ajuda do músico Zé Ricardo - um dos mais antigos no grupo. "Meu sonho é mostrar o talento dos músicos brasileiros para o mundo. Já estive com grandes grupos de percussionistas dos EUA, como o Blue Devils e o Riverside College Community (RCC), e posso garantir que nossos artistas são tão bons quanto eles. Só nos falta o incentivo", afirma John. Se  depender de seu esforço como diretor, a ascensão é garantida: "Quero dar aos meus alunos a estrutura necessária para se tornarem grandes músicos com reconhecimento internacional. Até o momento, o que eu tenho para oferecer é o conhecimento", filosofa. O passo primordial já está dado.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Matéria: Uma Nôva pegada para um rock tradicional


Uma 'Nôva' pegada para um rock tradicional

Banda sorocabana lança o EP 'Tempo' na internet e anuncia que show de estreia será no dia 16 de maio, no Asteroid Bar
Notícia publicada na edição de 10/05/2012 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 1 do caderno C - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.
Luiz Fernando Toledo
luiz.toledo@jcruzeiro.com.br


Seis jovens e alguns instrumentos musicais fechados em uma sala durante meses. A ideia de décadas atrás se renova com frequência e continua apaixonando. Partindo de um nicho de sonoridade em ascensão constante no Brasil, "o rock alternativo", a banda Nôva se propôs a fazer uma música que não fugisse dos moldes tradicionais do gênero, ao mesmo tempo flertasse com elementos de peso, característicos do heavy metal, e ainda a euforia do pop contemporâneo. Nas palavras, a mistura soa mais complicada do que realmente é. Mas o ritmo do EP "Tempo", criado pelos músicos Fernando Xavier (vocal), Paick Alix (guitarra), Gustavo Kussuki (guitarra), Guilherme Hoffart (teclado), Pedro Barbosa (bateria) e Thiago Bertola (baixo), flui como poucos desta nova geração.

Com produção e mixagem do músico Felipe Colenci, o EP traz cinco faixas com letras em português: "Superficial", "Estrada sem fim", "Eu sei", "Teatro" e "Tempestade". A opção pelo nosso idioma, contrária a uma legião de bandas de rock que preferem o tradicional inglês, se deve a um fator explicado pelo guitarrista Gustavo Kussuki: "Queríamos transmitir sinceridade nas músicas. Em inglês, acabaríamos com frases longe da nossa realidade e não nos expressiaríamos bem", argumenta. O som, que alterna guitarras pesadas, solos de teclado e um baixo constante, tem refrões grudentos e letras que o grupo explica como "a ânsia jovem com a poesia adulta". 

Favoráveis à expansão da internet como principal meio de divulgação do trabalho artístico dos músicos, o Nôva disponibilizou as cinco músicas para download gratuito em sua página no Facebook. Para baixá-las, basta acessar: http://www.facebook.com/novaoficial. Para quem prefere adquirir o CD, a banda fará seu primeiro show no dia 16 de maio, no Asteroid Bar. A comercialização do material será inusitada: não haverá preço fixo. "O público vai pagar quanto achar que o EP vale ou mesmo quanto tiver de dinheiro na bolso na hora", explica Kussuki.
 
Histórias e metas 
Com uma distância considerável entre a criação da banda, em 2009, e o lançamento do primeiro material oficial, em 2012, o guitarrista e estudante de engenharia civil Paick Alix confessa que quase não reconhece sua banda, em relação ao ano em que tudo começou. Eram apenas três ex-membros (Paick, Pedro e Thiago) de uma outra banda de rock, a Falls of Glory, que decidiram criar um novo grupo com ideias focadas no country rock ou algo semelhante.
 
Só que uma coincidência mudaria os rumos do trio. O guitarrista Gus Kussuki, que trabalha na escola musical e studio Music House, aguardava uma banda que ensaiava no local. "Eu estava lá esperando a banda e o Paick apareceu do nada no studio. Acho que não tinha nada pra fazer", brincou Kussuki. Na conversa descompromissada, surgiu o convite de Paick para que o músico entrasse para o Nôva. "Pra falar a verdade, a banda começou com a entrada do Gus. Eu e o pessoal só tínhamos feito uns dois ou três ensaios no começo", comentou Paick.

O posto de vocalista foi o empecilho maior. Foram seis testes antes do grupo encontrar o estudante de publicidade Fernando Xavier. "Nós tentamos muita gente, mas ninguém se adequava ao nosso som, às nossas ideias. Até eu tentei cantar, quando vi que não daria certo com ninguém, mas sou muito tímido para isso", explica Gus Kussuki. Trocando olhares bem humorados com Paick, relembrou: "Foram tantas tentativas, que até faltavam argumentos para dispensar os candidatos." Conheceram Xavier em um evento da Virada Cultural Paulista 2010, que ocorreu na Usina Cultural. O estilo plural de Fernando, que mesclava o rock tradicional com o heavy metal, foi decisivo para entrar na banda.

Já o tecladista Guilherme Hoffart entrou na banda por experimentação do grupo. "No começo, queríamos apenas que ele nos desse uma força com samplers", explica Paick. "Era para ele ir em alguns ensaios, mas acabou frequentando todos e nos ajudando a criar as músicas", completa Gus. A banda o considera "como um terceiro guitarrista", que não serve apenas para preencher o som, como em outras bandas de rock, mas como o membro que incorpora sons diferentes e dá uma nova roupagem às musicas. O integrante também participa das composições e das letras. Fernando explica que a música "Tempestade" foi inspirada na trajetória do tecladista, que abandonou um emprego no banco, em que estava há cinco anos, para se dedicar à música. "É uma faixa que fala da paixão de se fazer aquilo que realmente se gosta", esclarece.

Para 2012, o Nôva planeja o lançamento de um videoclip, que será produzido por Alex Batista, mas ainda não divulga qual será a música. Pensam também em um novo EP, pois já têm outras músicas finalizadas e desejam mostrar o novo repertório ao público. "Acredito que a nossa principal meta do ano será divulgar nosso som. Será show atrás de show", finalizou Fernando.

domingo, 6 de maio de 2012

Matéria: Ação, violência e, principalmente, vingança


Ação, violência e, principalmente, vingança

Aos 26 anos, o estudante de história Icles Rodrigues é autor de cinco livros, cuja linguagem remete à sétima arte
Notícia publicada na edição de 07/06/2012 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 002 do caderno C - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.

 Luiz Fernando Toledo


Se a máxima "qualidade antes de quantidade" for verdadeira, Icles Rodrigues pode se considerar um vitorioso nas duas facetas da afirmação: aos 26 anos, o estudante de História de Florianópolis já escreveu cinco livros e prepara o sexto. Passagens viscerais e um texto dinâmico são características frequentes em sua obra, que permite ao leitor adentrar o universo literário quase como se assistisse a um filme de ação. E se realmente o fosse, Quentin Tarantino provavelmente se interessaria pelo roteiro, recheado de sequências frenéticas de pancadaria, sentimentos de vingança e analogias com clássicos da literatura e do cinema.

A comparação com o diretor de cinema que trouxe "Bastardos Inglórios" e "Kill Bill" não é vã. Rodrigues assume ter mais influência do cinema que da literatura para criar e narrar suas histórias. Na verdade, as técnicas e referências parecem se complementar. "A Divina Tragédia", quinta obra do jovem, traz diálogos rápidos e uma narrativa em primeira pessoa que permite certa aproximação com os personagens, sejam eles vilões ou heróis. Golpes e feridas são descritos de forma realista e meticulosa, dando vida aos protagonistas "Dante" e "Virgílio", clara referência ao poema épico de Dante Alighieri, "A Divina Comédia". O enredo gira em torno desta dupla, que só leva o nome de personagens do renascentismo europeu, mas que vive na sujeira e no escárnio de uma cidade de crimes e prostituição, em pleno século 21. A impressão de "filme violento" é reafirmada por diálogos caricatos, palavrões frequentes e até mesmo citações diretas, como quando um dos personagens se compara a Alex Delarge, protagonista do filme "Laranja Mecânica", do diretor Stanley Kubrick.


Trilogia


"Santificada seja minha vingança" é a primeira parte de uma trilogia criada por Rodrigues, que se completa com "A Marca de Caim" e "Arautos do Anticristo". Nesta história, citações bíblicas climatizam, de maneira quase épica, a história de Gabriel Fernandes, jornalista investigativo que descobre os trâmites fraudulentos e criminosos do empresário Matheus Garcia e, por causa de sua investigação, tem sua vida e a dos que o cercam posta em risco. Logo na introdução, a citação ao versículo 10 do capítulo bíblico do Apocalipse gera tensão ao leitor, prevendo um enredo que permite poucas reflexões imediatas, mas incita a curiosidade e instiga pelo ritmo das ações: "Clamaram em grande voz, dizendo: Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?", anuncia o trecho.

Nos dois livros lançados após a trilogia, "Era uma vez em Leningrado" e "A Divina Tragédia", Rodrigues inovou e se aproximou mais uma vez da linguagem cinematográfica, ao usar amigos "reais" como atores, que participaram das fotografias que ilustram as duas histórias. Ele próprio participa de algumas das imagens, fazendo o papel de protagonista destas obras. De autoria do próprio escritor na maioria dos casos, estas ilustrações ajudam a dar vida aos textos e a criar maior identificação visual com a história. O próximo livro, que deverá se chamar "Freiras Assassinas", terá este trabalho visual apenas na capa. Rodrigues está finalizando a produção e edição das imagens para lançá-lo, mas o texto já está finalizado.


Primeira pessoa


A narrativa em primeira pessoa forma personagens bem definidos e confere ao leitor uma espécie de "onisciência" dos fatos. Dessa forma, os heróis acabam deixando escapar que sua conduta não é tão idônea quanto transparece. A mudança rápida da ótica do mocinho para o bandido mostra, de certa forma, que eles não são tão diferentes. Característica principal presente em todos os livros de Rodrigues, o sentimento de vingança é frequente e o discurso dos personagens reflete um pensamento do autor: "Minha maior ligação com os personagens é o sentimento de que a impunidade leva, invariavelmente, a um senso de justiça deturpado, que se torna uma vingança", afirma.

Os três primeiros livros podem ser considerados uma leitura rápida, com muito enfoque na ação e no desfecho direto dos personagens. A média de 100 páginas cada ajuda a reforçar este pensamento. Já em relação aos dois últimos, há mais espaço à introspecção dos personagens e a diálogos maiores e mais expressivos, aumentando a densidades dos textos. A linguagem é simples e coesa, mas não óbvia, permitindo aproximação dos mais diversos tipos de público. Todas as obras podem ser obtidas por meio do site da editora online Agbook, pelo endereço http://agbook.com.br/authors/20684

domingo, 29 de abril de 2012

A cultura do "Zé Perguntinha"

Perguntar demais é chato?

Pensei muitas vezes antes de dar título a este texto. "Zé Perguntinha" foi um apelido que alguns estudantes de jornalismo da minha sala me deram (nunca me chamaram assim pessoalmente, apenas fizeram citações em redes sociais) há aproximadamente um ano, pelo fato de eu fazer muitas perguntas na sala de aula. Só fui descobrir que isso os incomodava depois que um aluno me contou a origem de tal apelido. Nunca parei para pensar muito na questão, pois de certa forma até me senti bem com o termo. Enquanto alguns eram conhecidos por escreverem textos horríveis ou por falarem bobagens escabrosas durante as aulas, ser conhecido como "o chato que faz muitas perguntas" era até elogioso, apesar da conotação negativa adotada pelos colegas.