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sexta-feira, 22 de junho de 2012

Matéria: "Sujou o tênis? Eu lavo. Deixou bagunça? Eu arrumo"

Esta matéria recebeu o primeiro lugar no prêmio Asi/Schaeffler, categoria estudante, no ano de 2012.


'Sujou o tênis, eu lavo. Deixou bagunça? Eu arrumo'

A história de Adriana, que adotou cinco crianças de uma só vez
Notícia publicada na edição de 22/06/2012 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 1 do caderno Ela - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.
Luiz Fernando Toledo
luiz.toledo@jcruzeiro.com.br


A voz pausada e rouca de Adriana soou por mais de uma hora. Confiante, e acima de tudo, entonada com orgulho pela história que contava. De sua casa, um espaço humilde situado em um morro de difícil acesso na Vila Astúrias, após uma longa escadaria que parte do bairro de Brigadeiro Tobias, ouviam-se palavras simples, mas irretocáveis, da mulher que tomou uma imensa responsabilidade para si, há um ano: assumir a guarda de cinco crianças que foram separadas da mãe, presa em 2011. 

Foi tudo muito rápido e os fatos passaram por Adriana sem que ela nem tivesse muito tempo para refletir. Viviane, mãe biológica de cinco filhos: Diego (15 anos), Eduardo (13), Talita (9), Leonardo (7) e Thainara (2), e vizinha de Adriana, envolveu-se com um presidiário durante alguns meses. Fora apresentada ao homem por intermédio de uma colega. Para agradá-lo, tentou levar drogas para ele, tentando escondê-las nas vestes em uma visita, e acabou flagrada pelas autoridades. Não deu tempo nem de se despedir dos filhos, que só ficaram sabendo da noticia pela própria Adriana. "Eu recebi uma ligação, e fiquei chocada. Logo fui avisar o Diego, que é o mais velho entre os cinco filhos dela", contou. A prisão ocorreu em um sábado, e por duas noites os cinco dormiram sem ninguém para acompanhá-los. 

"Apesar de gostar de todos eles e termos uma convivência no dia a dia, eu não queria me envolver, no começo", relata Adriana. Mas partia-lhe o coração vê-los "jogados", sem nenhum cuidado. Mãe de um rapaz de 18 anos, Maurício, sentiu que os instintos maternos lhe apertavam a consciência. Enquanto pintava as massas de biscuit que produz para vender, em frente à sua casa, ela observou Diego e Eduardo sem rumo, andando pelo morro, e logo fez uma oferta: "por que vocês não vêm tomar café comigo?". Sem pestanejar, os meninos logo foram. 

Preocupada em deixá-los sozinhos, Adriana ligou para seu marido Eliel, que trabalha como mecânico, e estava na oficina no momento. "Não posso permitir que eles fiquem lá, Eliel. Vou trazê-los pra casa", afirmou ao cônjuge, que logo concordou, sem apresentar barreiras. O Conselho Tutelar alertou Adriana que só poderia cuidar deles se fosse em sua própria casa. "Fiquei um pouco assustada no começo, mas costumo dizer que me sinto privilegiada por poder ajudá-los", afirmou a mulher. 

Um oficial da justiça visitou o casal, e disse que em breve viria buscar as crianças, para que o juiz decidisse para onde elas iriam. Eduardo não conseguia parar de chorar com a notícia. Já Diego cogitava fugir, mas sabia que não daria certo. Adriana desesperou-se: "o morro sem essas crianças vai ser um deserto pra mim. Eles não podem ir, vão acabar separando os irmãos". A decisão do juiz amenizou o quadro: baseou-se no vínculo que a família já havia criado com os cinco irmãos: Adriana obteve a guarda provisória das crianças, e alguns meses depois, veio a definitiva. 

De tão extasiado, o casal quase não se preocupava com a complexidade de sustentar a nova família, que agora era composta por oito pessoas. Buscaram se virar como podiam. Nas primeiras semanas, o irmão de Adriana, Reinaldo, emprestou dois colchões que possuía. Não era suficiente para abrigar todos, mas não se importaram: dormiam todos na cozinha. Dois irmãos chegavam a dividir um colchão de solteiro.
O filho de Adriana, Maurício, apoiou a família em tudo, desde o início, até mesmo com as cestas básicas que recebia em seu serviço. "E quando me perguntam quem são esses moleques, eu digo com orgulho: são meus irmãos". Maurício e os irmãos sempre foram muito apegados, mesmo antes de morarem juntos. As duas famílias, como um todo, se viam com frequência, e como eles não tinham um pai, costumavam trazer presentes para Eliel no dia dos pais. Mal sabiam que viveriam juntos, em tão pouco tempo. 

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Adriana se sustenta produzindo e vendendo miniaturas em biscuit (Foto: Aldo V. Silva)


"Vamos levar todo mundo pra comer na festa junina?" 
Adriana conta que a vida dos cinco irmãos melhorou significativamente, em alguns pontos. Mesmo vivendo às custas de doações, ajuda do Bolsa Família, cesta básica do filho de Adriana e de conhecidos, a rotina dos irmãos parece ter mudado bastante em relação a que tinham. Ela admite que o amor de mãe possa fazer muita falta aos meninos, mas percebe, pelo que eles mesmos costumam dizer, que tudo melhorou, num sentido geral. 

Certa vez, Diego comentou: "Dri, agora que a gente é rico, poderemos levar todo mundo pra comer na festa junina", referindo-se à festa sediada pela pastoral do bairro. Foi a frase mais repercutida entre eles durante semanas, em tom de piada. A ironia nunca fez um sentido tão agradável quanto na frase do jovem. Para Diego, antes seria impossível a façanha de comer qualquer coisa na festa junina. Ele ia com os irmãos apenas para ficar observando os outros comerem, e sonhar com o dia em que teria essa oportunidade. 


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(foto: Aldo V. Silva)


"Eu só quero ajudar. Mas sei que o amor de mãe prevalecerá no final. E se eles quiserem voltar, eu não direi que não"Não bastassem os cinco filhos que acolheu, Adriana ainda fez questão de trazer os três cães que Viviane tomava conta. "Estrelinha", o xodó das duas famílias, era sempre mencionada nas cartas que a mãe das crianças enviava da prisão: "Vocês estão cuidando bem da minha estrelinha?", indagava. O único contato dela com os filhos acontece por meio de textos, já que o contato pessoal é improvável: está em uma cadeia localizada a mais de 140 quilômetros de distância. Com a distância, a identidade familiar com a mãe se enfraqueceu. Sentiriam falta da mãe? Os meninos preferiram não comentar muito a respeito, mas seus olhares e expressões entregavam um sentimento latente, que se desfez em uma ligeira frase de Diego: "acho que sim, mas depois do que ela nos fez, é difícil dizer".

Mas seriam capazes de perdoá-la? Antes mesmo que pudessem se manifestar, o marido de Adriana comentou: "É claro que sim. A mãe dessas crianças também é um ser humano, e pode errar como qualquer um." E a esposa reforçou: "eu só quero ajudar. Mas sei que o amor de mãe prevalecerá no final. E se eles quiserem voltar, eu não direi que não", comentou baixando a voz. O consentimento dos irmãos às afirmações de Adriana e Eliel ocorreu pelo olhar e um breve aceno com a cabeça, mas não puderam verbalizá-lo pela emoção que o assunto parecia lhes causar.

De uma forma ou de outra, a segunda mãe dos irmãos não esconde o medo de perdê-los. "Quando vejo estas crianças quietas, no quartinho, comendo pipoca e assistindo televisão todas juntas, eu simplesmente começo a chorar. Eu tive que fazer o que fiz. Jamais aceitaria vê-las separadas. Somos muito apegados agora", contou. O desfecho dessa história não seria assim tão simples. A pequena Thainara, que completará três anos em junho, interrompeu a conversa com a reportagem insistindo com Adriana: "mãe, quero tetê", apontando para a mamadeira. Nem Dri, nem Adriana. Mãe.



Uma oportunidade para recomeçar

Viviane e seus filhos já foram notícia nas páginas do Cruzeiro do Sul. Em 13 de junho de 2009, a repórter Maíra Fernandes denunciava a dura realidade vivenciada por eles, quando num frio de 10 graus, conforme dizia o texto, as crianças sequer podiam ir até a escola. O filho Leonardo, à época com apenas quatro anos, abria a matéria com um pedido: queria ganhar tijolos para tapar todas as frestas nas paredes de sua casa, responsáveis pela entrada de ar frio. Não havia roupa suficiente para agasalhá-los, nem ao menos um tênis para calçar os pés gelados de Leonardo. Um berço branco aguardava a chegada de um novo membro da família: Thainara. Pelo resto do ambiente, vasilhas espalhadas buscavam minimizar o efeito das chuvas, que também pelas frestas, faziam estrago na moradia da família.

Com a mobilização de vizinhos, de professores da Escola Estadual "Izabel Rodrigues Galvão", onde os meninos estudavam e também por meio da repercussão que a matéria jornalística trouxe, Viviane recebeu roupas, brinquedos, e os reparos necessários para a casa. Temporariamente os problemas estavam sanados. Só o tempo foi revelar que eles voltariam : três anos depois, Adriana e seu irmão contam que a mãe das crianças não soube administrar as doações que recebeu. "Ela dava roupa pra todo mundo, vendia, não sabia o que fazer com o que ganhou. Alguns meses depois, já estavam todos passando frio e fome outra vez", lamentou.

"Entendo que de toda essa história, fico feliz que todos eles crescerão e serão boa gente. Estão todos encaminhados", pontua Adriana. "Mais do que isso, quando a mãe deles sair da cadeia, eles é que vão ensiná-la como viver melhor, e como fazer as coisas direito", admite com orgulho. Para o marido, Eliel, eles têm tudo que precisam para trilhar um caminho do bem: "estão estudando, tiram ótimas notas e são caseiros, não gostam de arruaça", conclui.

"O segredo é sempre estar ao lado delas"

Para esta família, a boa educação não vem do luxo ou da riqueza, mas da própria relação entre os membros: "Acho que o segredo para educar bem estas crianças é que eu estou sempre do lado deles. Não adianta ficar gritando e sendo mandona. Se eles aprontam hoje, eu corro atrás. Sujou o tênis, eu vou lá e lavo. Deixou bagunça? Eu arrumo. Um dia eles tomam juízo e fazem isso por eles mesmos, mas agora eu tenho que dar o bom o exemplo", argumenta Adriana. Ela conta que, apenas em um sábado, chegou a passar seis horas seguidas lavando roupas dos oito membros da casa. Mas com tanto empenho, o respeito é mútuo: ao saírem de casa, ou simplesmente em um gesto esporádico, cada um de seus filhos lhe dá um beijo na bochecha e agradece pela oportunidade que ela proporcionou. A mãe, não de sangue, mas de coração, fechou: "Disseram que foi loucura o que eu fiz, e até hoje alguns reafirmam, Mas loucura mesmo seria ter abandonado essas crianças quando ela mais precisavam de mim". 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Matéria: O Solfejo coletivo da percussão


O solfejo coletivo da percussão

Sorocabanos integram grupo de percussão Tchá-Degga-Da, que inova em método de ensino coletivo

Luiz Fernando Toledo
 luiz.toledo@jcruzeiro.com.br


Não foi por acaso que o grupo de percussão Tchá-Degga-Da caiu nas graças da grande mídia nos últimos anos. Semifinalistas do programa "Qual é o seu talento", do SBT, aplaudidos em pé por toda a plateia do Domingão do Faustão no quadro "Se vira nos 30" e entrevistados no programa "Manhã Maior" da Rede TV, o grupo alcançou rapidamente o status de grande banda. Não só banda, como uma espécie de escola online de musicalização, que atingiu jovens dos quatro cantos do País. Com 11 componentes sorocabanos - três veteranos e oito que se uniram à equipe em 2011, tiveram destaque no jornal Cruzeiro do Sul na última semana ("Jovens sorocabanos estão na Seleção Brasileira de Percussão", 3 de fevereiro). O criador do grupo, o americano John Grant e sua esposa, Taciane, conversaram com a reportagem e contaram sobre o projeto inovador cujo nome remete a um rudimento (elemento básico) da percussão - Tchá-Degga-Da, uma espécie de onomatopeia, que na linguagem dos músicos, é chamada de "flam drag". 

"De onde vocês são?" é o questionamento que qualquer um tomaria como ponto de partida. A resposta não viria assim tão fácil: o divertido sotaque americano de John, mesclado à sonora fala carioca de sua esposa, já entregava a origem diversificada do grupo. "Somos de todo o Brasil", afirmou Taciane. Diferente do que foi repetido exaustivamente no Domingão do Faustão, Tchá-Degga-Da não pertence a Sorocaba. Trata-se de um projeto, criado pelo americano em 2005, que integra jovens de diversas regiões do País. A rotina dos músicos parece complexa: de tempos em tempos, John avisa em seu site oficial (http://drumline.com.br) que haverá um acampamento em uma determinada data e local. Os percussionistas, que partem do Rio de Janeiro, Paraná, Goiás, São Paulo e outros estados, se viram como podem para chegar ao encontro, onde passam dias ensaiando. Nessas reuniões, John e outros músicos dão aulas de percussão aos alunos mais novos e divulgam o trabalho na região em que ocorre o evento, para que outros também se interessem. Após essas convenções musicais, eles gravam tutoriais e criam vídeos no Youtube, divulgando o trabalho através das redes sociais e do site oficial, para que outros aprendam. John explica que os tutoriais são produzidos pelos próprios alunos, com um método de caráter social. "Se um cara que veio dos EUA chegar gravando vídeos mostrando sua técnica, ninguém vai se interessar. Agora, se eu mostrar um aluno que realmente aprendeu, o espectador vai pensar: "se ele consegue, eu também consigo", relata. 

Nos encontros seguintes, internautas que conheceram o grupo através dos vídeos acabam participando também. "Muitos acham que nós somos uma empresa grande, que tem escolas em outras cidades ou professores que recebem salário para ensinar. Não é nada disso, nosso projeto é totalmente independente e não possui renda própria", comenta John. Na realidade, o grupo se registrou como Organização Não-Governamental (Ong) há um ano. A impressão de grande se intensificou pela visibilidade nacional que atingiram após as apresentações na TV. Um dos objetivos do Tchá-Degga-Da é treinar uma seleção brasileira de percussão para competir em um tradicional evento nos Estados Unidos, que ocorre em abril - o Campeonato Mundial de Percussão Rudimentar (WGI). 

Para participar do grupo, basta querer. Taciane explica que não é preciso ter nenhuma noção musical. "Tivemos alunos que entraram sem conhecer nada de música, mas se interessaram tanto que hoje se profissionalizaram e estão no mercado de trabalho", comenta, satisfeita. 
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Em Sorocaba

A relação do Tchá-Degga-Da com os sorocabanos se intensificou em outubro do ano passado, quando John foi chamado para treinar os percussionistas da Banda Marcial de Sorocaba (Bamaso). Muito antes disso, em 2006, três jovens da cidade já participavam dos acampamentos musicais e se apresentavam com o grupo: os veteranos Lucas dos Santos Bidoia, de 15 anos, Caio César Ayres de Moura, 17 anos e Renan Silva Proença, de 21 anos. Lucas, o prodígio da equipe, começou aos 9 anos e seu currículo já surpreende: aos 13 fez inscrição para o curso de percussão no Conservatório Musical de Tatuí e passou em primeiro lugar, à frente de mais de 100 concorrentes. Infelizmente, devido à sua idade, acabou não podendo assistir às aulas conquistadas. Agora ele estuda para fazer intercâmbio nos Estados Unidos e cursar a faculdade de música por lá.

Caio aprendeu a ler partituras com o Tchá-Degga-Da e sua opinião sobre a iniciativa é decisiva. "É um projeto que abre oportunidades para muitas pessoas", diz o aluno, que assim como Lucas, grava tutoriais para ajudar os mais novos.

Acampamentos 


O mosaico cultural do Tchá-Degga-Da é evidente nos acampamentos organizados por John Grant. Sem lugar espefício, os músicos precisam se virar - e muito - para chegar ao local combinado, normalmente na região sudeste, devido ao grande número de alunos. Já estiveram no Rio de Janeiro, em Limeira , Presidente Prudente, Lorena, Bauru, Santa Fé e outras cidades, totalizando mais de 40 encontros nos seis anos de existência do grupo. A duração dos encontros também varia, podendo ser um final de semana, ou um feriado prolongado de cinco ou seis dias. "Depende da disponibilidade dos participantes", explica Taciane.

Cada um contribui da forma que pode. "Alguns trazem comida, outros cozinham. Normalmente essa parte é minha, é a dificuldade de ser uma das poucas mulheres do grupo", ironiza Taciane, em tom de brincadeira. Os ensaios são intensos, e podem chegar a 14 horas diárias. "Nos vemos poucas vezes pessoalmente, temos que aproveitar todo o tempo disponível", justifica o sorocabano Caio. "Eu e o Lucas já chegamos a ficar 48 horas sem dormir, entre tocar e comer", comenta aos risos. Através de uma "tábua de estudo", uma espécie de tambor de borracha, que ameniza a altura do som, os alunos podem treinar os "rudimentos" ensinados nas aulas que ocorrem durante os encontros. Mesmo com a medida preventiva, o grupo recebe frequentemente reclamações dos vizinhos, por causa do barulho. "Quando nos encontramos, os ensaios ocorrem de manhã, à tarde, à noite e de madrugada, é difícil que eles (os vizinhos) entendam isso", diz a percussionista.

Projeção nacional 


"Um tal de SBT ligou dizendo que nós fomos chamados para uma audição", disse um receoso John, à sua esposa, em tom obviamente de dúvida, em meados de 2010. Ele não conhecia o canal. Na verdade, ainda não sabia do que se tratava, pois nunca foi de assistir televisão, nem quando morava nos EUA. O espanto foi tanto, que Taciane gritou em comemoração: "SBT? É televisão, John!". O integrante do grupo Zé Ricardo inscreveu o Tchá-Degga-Da no programa "Qual é o seu talento?", pelo site do SBT algumas semanas antes, e o resultado chegou. A maior dificuldade foi reunir o grupo rapidamente. Foram todos à casa de Lucas, em Sorocaba, que era o local mais próximo de São Paulo que conseguiriam se reunir. O lar do estudante se tornou um verdadeiro hotel, com colchões espalhados pela cozinha, sala, quartos, quinta, enfim, em todos os cantos. Após obter apoio da secretaria de educação de Sorocaba, conseguiram um ônibus que os levou até São Paulo.

"O Thomas (Roth, apresentador do programa) nos disse que foram selecionados 20 grupos, entre todo o material recebido pelo SBT. Desses 20, sete entrariam ao ar, provavelmente", conta John. O pessimismo se intensificou no pensamento do grupo: "Com certeza ficaremos entre os 13 que nem na TV aparecerão", lembra Taciane. Ao receber a classificação e chegarem até a semifinal do programa, todos se surpreenderam. "O Tcha-Degga-Dá não venceu, mas recebemos muitos elogios dos críticos do programa. Até o Arnaldo (Saccomani, apresentador) nos elogiou", brinca a percussionista.

No Domingão do Faustão, o momento foi breve, mas garantiu a ascensão artística do grupo. O percussionista da banda do programa, Marcus Cesar Modesto, rasgou elogios à apresentação, enaltecendo a qualidade particular dos músicos. Respondendo a uma indagação do Faustão, Modesto afirmou: "Aí não cabe músico mediano. Ou todos são bons, ou não rola. Eles têm que funcionar como um time". Um erro no cadastro dos participantes fez com que o apresentador exibisse o Tcha-Degga-Dá como um grupo de Sorocaba. A repercussão do "equívoco" em todo o país foi positiva para a cidade, e pertinente, agora que John realmente mora na cidade, e realiza o trabalho com a Bamaso. 

Dificuldades 


O projeto promissor de John Grant, apesar de já garantir qualidade técnica de seus músicos, ainda encontra resistência de patrocinadores. O músico lamenta alguns episódios sofridos pelo grupo, como quando foram prestigiados por uma famosa empresa de instrumentos musicais dos EUA, que prometeu fornecer equipamentos aos alunos, mas quando tentou contato com a filial brasileira, a proposta foi recusada. John também se preocupa com o preço e a qualidade dos instrumentos, que não se compara ao que é oferecido nos EUA. "O preço é absurdo. A baqueta que utilizamos, custa em média seis dólares em qualquer cidade americana. Por aqui, encontramos por, no mínimo, R$ 50", lamenta o percussionista. "O problema é ainda maior, se levar em consideração que nossos alunos são jovens, que ainda fazem ensino médio ou estão querendo fazer uma faculdade, e não trabalham para arcar com as despesas.", explica. John também chama a atenção para a forma como muitos percebem a música no Brasil: "Quando o filho tem 12 anos, os pais acham lindo que ele estude música. Mas aí chega a época do vestibular, e mesmo aquele aluno que deseja seguir carreira como músico, acaba tendo que partir para um curso mais tradicional, a pedido da família. Perdemos muitos músicos talentosos por essa questão cultural", desaponta-se.

Para organizar os acampamentos, cada um se vira como pode. Alguns vão ao encontro apenas com o dinheiro da ida, arriscando não ter como voltar depois. "Nós tentamos buscar patrocínio com empresas aéreas mas não obtivemos êxito. A dificuldade não é apenas financeira, mas de pessoas, em alguns casos. Não sabemos como redigir um projeto formal para apresentar às empresas, por exemplo", explica Taciane. Nos primeiros encontros, o próprio John montou alguns instrumentos, com ajuda do músico Zé Ricardo - um dos mais antigos no grupo. "Meu sonho é mostrar o talento dos músicos brasileiros para o mundo. Já estive com grandes grupos de percussionistas dos EUA, como o Blue Devils e o Riverside College Community (RCC), e posso garantir que nossos artistas são tão bons quanto eles. Só nos falta o incentivo", afirma John. Se  depender de seu esforço como diretor, a ascensão é garantida: "Quero dar aos meus alunos a estrutura necessária para se tornarem grandes músicos com reconhecimento internacional. Até o momento, o que eu tenho para oferecer é o conhecimento", filosofa. O passo primordial já está dado.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Matéria: Uma Nôva pegada para um rock tradicional


Uma 'Nôva' pegada para um rock tradicional

Banda sorocabana lança o EP 'Tempo' na internet e anuncia que show de estreia será no dia 16 de maio, no Asteroid Bar
Notícia publicada na edição de 10/05/2012 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 1 do caderno C - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.
Luiz Fernando Toledo
luiz.toledo@jcruzeiro.com.br


Seis jovens e alguns instrumentos musicais fechados em uma sala durante meses. A ideia de décadas atrás se renova com frequência e continua apaixonando. Partindo de um nicho de sonoridade em ascensão constante no Brasil, "o rock alternativo", a banda Nôva se propôs a fazer uma música que não fugisse dos moldes tradicionais do gênero, ao mesmo tempo flertasse com elementos de peso, característicos do heavy metal, e ainda a euforia do pop contemporâneo. Nas palavras, a mistura soa mais complicada do que realmente é. Mas o ritmo do EP "Tempo", criado pelos músicos Fernando Xavier (vocal), Paick Alix (guitarra), Gustavo Kussuki (guitarra), Guilherme Hoffart (teclado), Pedro Barbosa (bateria) e Thiago Bertola (baixo), flui como poucos desta nova geração.

Com produção e mixagem do músico Felipe Colenci, o EP traz cinco faixas com letras em português: "Superficial", "Estrada sem fim", "Eu sei", "Teatro" e "Tempestade". A opção pelo nosso idioma, contrária a uma legião de bandas de rock que preferem o tradicional inglês, se deve a um fator explicado pelo guitarrista Gustavo Kussuki: "Queríamos transmitir sinceridade nas músicas. Em inglês, acabaríamos com frases longe da nossa realidade e não nos expressiaríamos bem", argumenta. O som, que alterna guitarras pesadas, solos de teclado e um baixo constante, tem refrões grudentos e letras que o grupo explica como "a ânsia jovem com a poesia adulta". 

Favoráveis à expansão da internet como principal meio de divulgação do trabalho artístico dos músicos, o Nôva disponibilizou as cinco músicas para download gratuito em sua página no Facebook. Para baixá-las, basta acessar: http://www.facebook.com/novaoficial. Para quem prefere adquirir o CD, a banda fará seu primeiro show no dia 16 de maio, no Asteroid Bar. A comercialização do material será inusitada: não haverá preço fixo. "O público vai pagar quanto achar que o EP vale ou mesmo quanto tiver de dinheiro na bolso na hora", explica Kussuki.
 
Histórias e metas 
Com uma distância considerável entre a criação da banda, em 2009, e o lançamento do primeiro material oficial, em 2012, o guitarrista e estudante de engenharia civil Paick Alix confessa que quase não reconhece sua banda, em relação ao ano em que tudo começou. Eram apenas três ex-membros (Paick, Pedro e Thiago) de uma outra banda de rock, a Falls of Glory, que decidiram criar um novo grupo com ideias focadas no country rock ou algo semelhante.
 
Só que uma coincidência mudaria os rumos do trio. O guitarrista Gus Kussuki, que trabalha na escola musical e studio Music House, aguardava uma banda que ensaiava no local. "Eu estava lá esperando a banda e o Paick apareceu do nada no studio. Acho que não tinha nada pra fazer", brincou Kussuki. Na conversa descompromissada, surgiu o convite de Paick para que o músico entrasse para o Nôva. "Pra falar a verdade, a banda começou com a entrada do Gus. Eu e o pessoal só tínhamos feito uns dois ou três ensaios no começo", comentou Paick.

O posto de vocalista foi o empecilho maior. Foram seis testes antes do grupo encontrar o estudante de publicidade Fernando Xavier. "Nós tentamos muita gente, mas ninguém se adequava ao nosso som, às nossas ideias. Até eu tentei cantar, quando vi que não daria certo com ninguém, mas sou muito tímido para isso", explica Gus Kussuki. Trocando olhares bem humorados com Paick, relembrou: "Foram tantas tentativas, que até faltavam argumentos para dispensar os candidatos." Conheceram Xavier em um evento da Virada Cultural Paulista 2010, que ocorreu na Usina Cultural. O estilo plural de Fernando, que mesclava o rock tradicional com o heavy metal, foi decisivo para entrar na banda.

Já o tecladista Guilherme Hoffart entrou na banda por experimentação do grupo. "No começo, queríamos apenas que ele nos desse uma força com samplers", explica Paick. "Era para ele ir em alguns ensaios, mas acabou frequentando todos e nos ajudando a criar as músicas", completa Gus. A banda o considera "como um terceiro guitarrista", que não serve apenas para preencher o som, como em outras bandas de rock, mas como o membro que incorpora sons diferentes e dá uma nova roupagem às musicas. O integrante também participa das composições e das letras. Fernando explica que a música "Tempestade" foi inspirada na trajetória do tecladista, que abandonou um emprego no banco, em que estava há cinco anos, para se dedicar à música. "É uma faixa que fala da paixão de se fazer aquilo que realmente se gosta", esclarece.

Para 2012, o Nôva planeja o lançamento de um videoclip, que será produzido por Alex Batista, mas ainda não divulga qual será a música. Pensam também em um novo EP, pois já têm outras músicas finalizadas e desejam mostrar o novo repertório ao público. "Acredito que a nossa principal meta do ano será divulgar nosso som. Será show atrás de show", finalizou Fernando.

domingo, 6 de maio de 2012

Matéria: Ação, violência e, principalmente, vingança


Ação, violência e, principalmente, vingança

Aos 26 anos, o estudante de história Icles Rodrigues é autor de cinco livros, cuja linguagem remete à sétima arte
Notícia publicada na edição de 07/06/2012 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 002 do caderno C - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.

 Luiz Fernando Toledo


Se a máxima "qualidade antes de quantidade" for verdadeira, Icles Rodrigues pode se considerar um vitorioso nas duas facetas da afirmação: aos 26 anos, o estudante de História de Florianópolis já escreveu cinco livros e prepara o sexto. Passagens viscerais e um texto dinâmico são características frequentes em sua obra, que permite ao leitor adentrar o universo literário quase como se assistisse a um filme de ação. E se realmente o fosse, Quentin Tarantino provavelmente se interessaria pelo roteiro, recheado de sequências frenéticas de pancadaria, sentimentos de vingança e analogias com clássicos da literatura e do cinema.

A comparação com o diretor de cinema que trouxe "Bastardos Inglórios" e "Kill Bill" não é vã. Rodrigues assume ter mais influência do cinema que da literatura para criar e narrar suas histórias. Na verdade, as técnicas e referências parecem se complementar. "A Divina Tragédia", quinta obra do jovem, traz diálogos rápidos e uma narrativa em primeira pessoa que permite certa aproximação com os personagens, sejam eles vilões ou heróis. Golpes e feridas são descritos de forma realista e meticulosa, dando vida aos protagonistas "Dante" e "Virgílio", clara referência ao poema épico de Dante Alighieri, "A Divina Comédia". O enredo gira em torno desta dupla, que só leva o nome de personagens do renascentismo europeu, mas que vive na sujeira e no escárnio de uma cidade de crimes e prostituição, em pleno século 21. A impressão de "filme violento" é reafirmada por diálogos caricatos, palavrões frequentes e até mesmo citações diretas, como quando um dos personagens se compara a Alex Delarge, protagonista do filme "Laranja Mecânica", do diretor Stanley Kubrick.


Trilogia


"Santificada seja minha vingança" é a primeira parte de uma trilogia criada por Rodrigues, que se completa com "A Marca de Caim" e "Arautos do Anticristo". Nesta história, citações bíblicas climatizam, de maneira quase épica, a história de Gabriel Fernandes, jornalista investigativo que descobre os trâmites fraudulentos e criminosos do empresário Matheus Garcia e, por causa de sua investigação, tem sua vida e a dos que o cercam posta em risco. Logo na introdução, a citação ao versículo 10 do capítulo bíblico do Apocalipse gera tensão ao leitor, prevendo um enredo que permite poucas reflexões imediatas, mas incita a curiosidade e instiga pelo ritmo das ações: "Clamaram em grande voz, dizendo: Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?", anuncia o trecho.

Nos dois livros lançados após a trilogia, "Era uma vez em Leningrado" e "A Divina Tragédia", Rodrigues inovou e se aproximou mais uma vez da linguagem cinematográfica, ao usar amigos "reais" como atores, que participaram das fotografias que ilustram as duas histórias. Ele próprio participa de algumas das imagens, fazendo o papel de protagonista destas obras. De autoria do próprio escritor na maioria dos casos, estas ilustrações ajudam a dar vida aos textos e a criar maior identificação visual com a história. O próximo livro, que deverá se chamar "Freiras Assassinas", terá este trabalho visual apenas na capa. Rodrigues está finalizando a produção e edição das imagens para lançá-lo, mas o texto já está finalizado.


Primeira pessoa


A narrativa em primeira pessoa forma personagens bem definidos e confere ao leitor uma espécie de "onisciência" dos fatos. Dessa forma, os heróis acabam deixando escapar que sua conduta não é tão idônea quanto transparece. A mudança rápida da ótica do mocinho para o bandido mostra, de certa forma, que eles não são tão diferentes. Característica principal presente em todos os livros de Rodrigues, o sentimento de vingança é frequente e o discurso dos personagens reflete um pensamento do autor: "Minha maior ligação com os personagens é o sentimento de que a impunidade leva, invariavelmente, a um senso de justiça deturpado, que se torna uma vingança", afirma.

Os três primeiros livros podem ser considerados uma leitura rápida, com muito enfoque na ação e no desfecho direto dos personagens. A média de 100 páginas cada ajuda a reforçar este pensamento. Já em relação aos dois últimos, há mais espaço à introspecção dos personagens e a diálogos maiores e mais expressivos, aumentando a densidades dos textos. A linguagem é simples e coesa, mas não óbvia, permitindo aproximação dos mais diversos tipos de público. Todas as obras podem ser obtidas por meio do site da editora online Agbook, pelo endereço http://agbook.com.br/authors/20684

segunda-feira, 5 de março de 2012

Matéria: Espetáculo desconcerta o famoso romance de Verona


Espetáculo desconcerta o famoso romance de Verona

Grupo teatral apresenta versão contemporânea da obra de Shakespeare, "Romeu e Julieta"
Notícia publicada na edição de 04/02/2012 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 008 do caderno C - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.

Luiz Fernando Toledo
luiz.toledo@jcruzeiro.com.br 



Esqueça o arquétipo da tragédia projetado pelo par romântico do século XVI. No espetáculo "Romeo e Julieta e os Habitantes de Góia", do grupo teatral "#Textopq?", o contexto é de contemporaneidade. Buscando uma fuga  aos moldes da obra clássica de Shakespeare, as atrizes sorocabanas Thailini Rocha e Gabriela Ricci abusaram da licença poética para desenvolver um espetáculo criado completamente por crianças e adolescentes, integrantes da trupe que dirigem.  Apresentado neste domingo (5), no Teatro Pedro Salomão José - E.E. Getúlio Vargas,  o resultado é de 45 minutos de muita imaginação, chamando a atenção pela ousadia, e talvez, torcer o nariz dos mais tradicionais.
 
O espetáculo infantil surgiu de uma brincadeira.  Um grupo de alunos de 8 a 17 anos da Escola de Dança e Teatro Arabesq discutia qual seria a próxima peça que apresentariam. Thailini perguntou aos alunos que personagem gostariam de representar. "Um jedi!", bradou Bruno César,  17 anos, que foi recebido pelo sarro dos colegas. A proposta, com entonação de humor, foi aceita pela atriz, que respondeu em prontidão: "Por que não?".  E assim, a história começou a se esboçar.
 
O nome do grupo, "#Textopq?" faz clara referência à sua filosofia de criação artística. Ao invés de decorar falas e produzir cenas em seu entorno, optaram por uma seleção de retalhos: cada ator foi também seu próprio autor, criando um personagem e suas problemáticas.  O roteiro foi se costurando durante as criações.  Será possível? De acordo com Thailini, totalmente. "Se purdemos fazer a diferença para alguém com a nossa arte, estaremos satisfeitos", explica um texto de apresentação do "#Textopq?". 
 
A confusão literária promete introduzir diversos novos personagens à trama. O tradicional Romeo (grafado de forma diferente à original, para não confundir), não é o mesmo dos campos de Verona. Distante da rivalidade entre Capuletos e Montecchios, ele é um jovem apaixonado, que se rendeu aos encantos de uma moça de seu convívio, e após a leitura da obra de Shakespeare, pareceu indignado com o fato de não ainda não tê-la conquistado. Não bastasse a curiosa metalinguagem de personagem para personagem, inserem-se ainda a família real de Góia, uma guerreira árabe, um gnomo e um peculiar agente secreto ao quadro inventivo da peça, incitando a curiosidade pela história criada pelo elenco de 9 atores: Hilary, 8 anos, Bruno César (17), Hellen(9), Jean Felipe (15), Larissa (10), Laura (11), Mariane (10), Samira (11) e Tamaê (11). Um verdadeiro passeio ao imaginário, que desafia a criatividade dos pequenos talentos.

"Memórias de uma adolescente na Segunda Guerra" é alternativa para o domingo

Contando também com as atrizes Thailini Rocha (iluminação) e Gabriela Ricci (som/direção), o teatro Pedro Salomão José dará espaço aos relatos da segunda Guerra Mundial de uma conhecida obra: O Diário de Anne Frank. O espetáculo "Anne Frank - "Memória de uma adolescente na Segunda Guerra" é uma adaptação do grupo teatral "Sóde Quarta" ao roteiro original, que mostra a história de uma adolescente judia, que viveu dois anos escondida com sua família em um sótão em Amsterdam, durante o Holocausto.

O "Sóde Quarta" é constituído de jovens de 14 a 18 anos da cidade de Itu, e teve início a partir de um projeto da Universidade de Sorocaba (Uniso), encabeçado pela atriz Gabriela Ricci, formada recentemente em Arte e Educação, pela instituição. Seu primeiro trabalho foi a interpretação e adaptação para o teatro da obra do pintor ituano Almeida Junior, precursor da temática regionalista nas artes plásticas. O resultado satisfatório fez o grupo retornar às atividades no final de 2011, escolhendo "O Diário de Anne Frank" como retomada. A opção pelo texto, de acordo com Gabriela, se deve à sua relevância histórica, e a veracidade de seus relatos. A prepação do elenco envolveu, além de uma série de estudos de textos e livros sobre o período, exercícios que fizessem com que cada um dos atores se sentissem em momentos de repressão, tristeza e clausura, buscando proximidade com o sofrimento da protagonista.


Serviço:

"Romeo e Julieta e os Habitantes de Góia" e "Anne Frank - Memórias de uma adolescente na Segunda Guerra"

Teatro Pedro Salomão José - E.E. Getúlio Vargas - Av. Eugênio Salerno, Nº 298.

O primeiro no Domingo, às 15h, com entrada franca mais um litro de leite.

O segundo, às 19h

Com ingresso ao preço de R$ 15 inteira e R$ 7 meia.

Outras informações: (15) 3226-4496 / (11) 8857-1829

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Matérias: Fim de mais um ato e A Arte de viver de Arte


Fim de mais um ato

(reportagem dupla, confira também "A Arte de viver de Arte")

Fechamento da escola de teatro Etac levanta a discussão sobre a dificuldade de viver de arte na cidade; docência é alternativa financeira



Notícia publicada na edição de 25/02/2012 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 2 do caderno C - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.

Luiz Fernando Toledo
luiz.toledo@jcruzeiro.com.br 


Salas vazias e um sentimento latente de esperança. Foi o que restou da Escola Técnica de Arte e Comunicação de Sorocaba (Etac) e para o diretor de teatro e ator Tom Barros, além dos mais de 700 alunos que por lá passaram nos seus cinco anos de funcionamento. Localizada em três diferentes endereços ao longo de sua existência, por questões administrativas, a Etac deixou sua marca na cidade, plantando sonhos e buscando, por meio do teatro, incentivar "novas visões de mundo" aos seus alunos, nas palavras de Tom Barros. Do início, em 2006, ao fechamento, em dezembro de 2011, o diretor diz que o saldo do trabalho foi expressivo: mais de 50 espetáculos inéditos apresentados em Sorocaba e região. No último semestre de atividade, dispersaram-se 8 professores e cerca de 100 alunos, que passaram a buscar um novo espaço dentro das artes cênicas. O episódio ocorrido com a escola suscita a discussão sobre como viver de teatro na cidade e a forma como a produção artística é encarada por aqui.

Leia também: A arte de viver de arte

Barros é sucinto e cauteloso ao falar dos motivos que determinaram o fechamento da escola. "Foram problemas financeiros consecutivos", relata. A primeira sede, situada na rua Padre Luiz, 665, enfrentou alguns problemas pela falta de estacionamento aos alunos, motivando a ida para uma casa na rua Ema Zacchi Police, 73, esta desapropriada para a construção de uma escola infantil. "O endividamento se acumulou de forma que a terceira sede, na rua Castanho Taques, 227, já não tivesse o fôlego das unidades anteriores", explica o diretor. 

A maior preocupação de Barros, ao perceber que precisaria encerrar as aulas da Etac, era que as atividades do último semestre de 2011 não fossem prejudicadas, nem os espetáculos em andamento se desmantelassem pelo desânimo. "A opção foi manter segredo até o último momento. Depois de apresentadas as peças, eu revelei a todos. Simplesmente não abri matrícula no começo de 2012", explica. 

O diretor tem pretensões de retomar o ensino de teatro no futuro, mas já adianta que somente se houver algum incentivo público. "Quero me distanciar do ensino privado, pois a dor de perder a Etac foi grande. Para mim, foi como a vitória do capitalismo sobre a arte", filosofa. 

Opções de cursos

Apesar de não existirem dados oficiais, a Associação Teatral de Sorocaba (ATS) aponta aproximadamente 10 grupos de artes cênicas em atividade atualmente na cidade. Para o cálculo, foram levados em consideração a periodicidade dos espetáculos apresentados e a receptividade do público. Vale ressaltar que muitos desses grupos desenvolvem também oficinas abertas à população, possibilitando uma introdução ao teatro. As aulas também são uma forma de angariar recursos financeiros às companhias. 

A Companhia Camarim, dirigida por Hamilton Sbrana, existe há 10 anos, e apresenta um repertório vasto. A Cantata de Natal na Estação foi uma das recentes realizações da trupe. Junto à Camarim, formou-se, no início do ano passado, a Casa do Ator, oficina para quem deseja aprender teatro, mesmo sem possuir nenhuma experiência, ou mesmo para perder a timidez. "A Casa do Ator ensina teatro, mas muitos nos procuram por outras razões. Alguns querem ter mais disciplina para passar em um vestibular, ou mesmo para conseguir falar em uma entrevista de emprego", explica Sbrana. 

A trupe Koskowisck promove oficinas voltadas ao clown e ao universo circense. O grupo já apresentou cerca de 20 montagens diferentes e viajou pelo país com a peça "O Moço que casou com Mulher Braba". Atualmente, está com matrículas abertas para "O Teatro e a Comédia", estudo que busca a reflexão e pesquisa prática pelo universo do humor. 

A trupe Nativos Terra Rasgada, que conta com a participação de ex-professores da Etac, desenvolve oficinas de teatro de rua em diversos bairros da cidade. O ator Flávio Melo destaca um dos trabalhos mais importantes do grupo, desenvolvido na Vila Helena: em cerca de 8 meses, criaram e apresentaram a montagem "Vila à Vista", projeto que incluiu 60 pessoas, entre atores e moradores do bairro, sem limite de idade. Ele recorda que ao final da temporada, quando deixariam o bairro, uma das alunas indagou: "Vocês vêm para cá durante praticamente um ano, nos mostram essa nova realidade, mudam a nossa vida, e agora simplesmente vão embora?" Para o ator, foi um choque, que conduziu o Nativos Terra Rasgada a pensar em projetos mais longos com a comunidade. 

Além das oficinas, existem cursos de teatro oferecidos por instituições na cidade. A Fundec (Fundação de Desenvolvimento Cultural de Sorocaba), em parceria com a Prefeitura de Sorocaba, abre cerca de 130 vagas por ano, em janeiro, por meio de teste. As aulas são ministradas pelo ator e diretor Mário Pérsico e o curso têm a duração de 2 anos. O Sesi traz um curso com seis horas semanais, divididas entre técnicas específicas, como dança-teatro, teatros performático e narrativo, entre outros, e no final do ano, uma peça é apresentada.

Confira alguns cursos oferecidos na cidade:Oficina Cultural Regional Grande Otelo
Cursos gratuitos são oferecidos ao longo do ano. No momento, não há inscrições para teatro.
Praça Frei Baraúna, s/nº
Telefone: (15) 3224-3377 / 3232-9329


Fundação de Desenvolvimento Cultural de Sorocaba -Fundec
Curso gratuito de teatro abre vagas somente em janeiro, por meio de teste.
Rua Brigadeiro Tobias, 73
Telefone: (15) 3233-2220

Programa "Mais Cultura", da Prefeitura de Sorocaba
As aulas gratuitas de teatro. A inscrição pode ser feita em diversos endereços, dependendo da oficina desejada.
Para saber o local, e obter outras informações, o telefone é (15) 3211-2911

Grupo Nativos Terra Rasgada
Oficinas de teatro de rua, vagas abertas
rua Princesa Isabel - 607 -Vila Carvalho
Informações: (15) 3032-0312

Sesi - Núcleo de Artes Cênicas (NAC)
Dança-teatro, teatros narrativo e performático e outras técnicas (de graça)
20 vagas, seleção por teste
rua Duque de Caxias, 494, Mangal
Informações: (15) 3388-0419

Camarim - Casa do Ator
Aulas de teatro, vagas abertas
rua Vicente Decária, 373 -Jardim Rosária Alcoléa
Informações: (15) 2104-5489 ou 2104-1243

Trupe Koskowisck
Oficinas com vagas abertas
Rua da Penha, 823, 3ºAndar Centro Sorocaba/SP
Informações: (15) 2104-8873, (15) 9746-8589 ou (15) 9111-4336

Para outras informações, o telefone da Associação Teatral de Sorocaba (ATS) é (15) 3032-0312.


A arte de viver de arte



Notícia publicada na edição de 25/02/2012 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 2 do caderno C - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.




                                                                  O diretor Mário Pérsico /  foto: Fábio Rogério


Luiz Fernando Toledo
luiz.toledo@jcruzeiro.com.br 


É possível viver de teatro em Sorocaba? Para se aproximar de uma resposta e, principalmente, levantar uma reflexão sobre o tema, o Mais Cruzeiro ouviu alguns diretores já renomados na história do teatro sorocabano, além de atores e estudantes. 

Hamilton Sbrana, da Companhia Camarim e também professor do projeto "Mais Cultura" (mantido pela Prefeitura), comemora o momento. Para ele, a cidade vive uma época próspera e favorável às artes num contexto geral, fator ocasionado, segundo ele, pelo interesse da Prefeitura de Sorocaba em promover a cultura como forma de combate a outras questões como a violência e a miséria. "A procura pelos cursos é muito grande, o que mostra que o sorocabano está tendo grande interesse pela arte", comenta Sbrana. "A Fundec, por exemplo, não consegue atender a demanda de alunos que tentam se inscrever no curso e acaba tendo que limitar as vagas", explica. Sobre a qualidade dos projetos locais, ele rasga elogios: "Temos produtores de cultura de alto nível em nossa cidade. Atores e autores que não se focam apenas na cidade, mas que têm destaque em todo o Brasil", comenta o diretor, enquanto cita nomes como Fernanda Maia e Robson Catalunha. Sbrana também fala do projeto "Mais Cultura", da Secretaria de Cultura e Lazer (Secult) em parceria com a Secretaria da Educação (Sedu), que promove oficinas gratuitas de balé, jazz, teatro, dança de salão, flauta, capoeira, violino e guitarra em diversos locais da cidade. "Acredito que a cidade esteja ressurgindo das cinzas. Estamos retomando o tempo áureo de Sorocaba, nas década de 40 e 50, quando levávamos a nossa arte para todo o país", conclui. 

O professor e ator Mário Pérsico, que dirige e atua na Cia. Clássica de Repertório e dá aulas de teatro na Fundec, faz menção à Lei de Incentivo à Cultura (Linc) e sua relação com a produção artística desde a sua criação, em 1998. "Foi possível sonhar mais e desenvolver melhor os trabalhos, no sentido de produção: maquiagem, figurino, cenário entre tantas outras coisas." Além disso, o ator relata que a preparação dos atores se profissionalizou: "Agora, é possível contratar professores de canto, de preparação corporal e o que for preciso para sair do âmbito do teatro amador", comenta. Em contrapartida, Pérsico alerta os acomodados: "É importante manter a criatividade. Sem apoio financeiro, os diretores e atores precisavam buscar cenário e roupa que não tinham, o que fortalecia e muito a imaginação no espetáculo. Hoje com a Linc, o perigo é que esse consciente criativo se perca no comodismo", reforça. 

Na dicotomia "arte x produto", o diretor Roberto Gill de Camargo, que é professor no curso de Teatro (Habilitação em Arte-Educação) da Uniso e fundador de um dos grupos mais renomados da história da cidade - o Katharsis -, é direto. "O profissional de teatro precisa viver, pagar suas contas, recolher encargos (INSS, FGTS,plano de saúde), aluguel e tudo o que um cidadão comum faz. A bilheteria não cobre isso, mesmo com a ajuda dos editais. No caso do Katharsis, quase todos exercem a docência, além de participarem das peças", explica. Para ele, trata-se de uma disputa complexa: "Falar em arte no capitalismo é utopia. O que interessa é o produto, a mercadoria, o consumo, o dinheiro, a fama e a alienação. Essa dicotomia entre arte e mercadoria existe no mundo todo." 

Um exemplo prático da situação é vivido pela atriz Bárbara Diggelmann. Recém-formada em Teatro - Arte e Educação pela Uniso, Bárbara chegou a apresentar 10 espetáculos em um ano, quando estava na faculdade. Apesar da experiência adquirida, viu a necessidade financeira de deixar os palcos de lado e partir para sua segunda opção: dar aula. "É muito difícil começar um grupo de teatro fazendo o que os outros já fazem sem verba, porque o público não paga grandes valores para assistir peças e há pouco incentivo", salienta. A atriz acabou descobrindo um campo pouco explorado pelos recém-formados na região, o teatro terapêutico: Bárbara passou a realizar oficinas de arte numa instituição de saúde mental. E já avisa: "aos preconceituosos que afirmam que teatro não é terapia, eu digo que é possível sim utilizar-se dele - e da arte como um todo- como meio terapêutico, desde que possa se contar com técnicos e equipe capacitados para tanto", argumenta. E a atriz se diz satisfeita: "A impossibilidade de atuar nos palcos me fez descobrir algo que merece mais atenção e que me cativa mais a cada dia". 

Apesar das dificuldades, idas e vindas, o interesse pelo teatro é grande, e não faltam exemplos de jovens que se empenham em conseguir um espaço na cidade. A estudante de teatro Luciane Cavassana, de 17 anos, veio de Angatuba para cá, deixando pais, escola e hobbies, em busca de um curso que a capacitasse para o mercado de trabalho nas artes cênicas. "Pesquisando na internet, minha mãe encontrou a Fundec e a Etac, e me deu total apoio para vir morar aqui. Como minha irmã vive em Sorocaba, foi mais fácil", comenta. Apesar de já ter concluído o curso de 2 anos na Fundec, e do desfecho da Etac, ela foi adiante: "Faço várias oficinas e workshops na Oficina Cultural Grande Otelo e também um curso de comédia dado pela Trupe Koskowisck", diz. O saldo foi positivo para a estudante, que comenta com satisfação: "Sinto que se eu tivesse ficado morando lá no interior jamais teria o conhecimento que eu tenho agora e sou muito feliz assim", completa, em tom de satisfação. 

Release: Feira do intercambista ocorre nos dias 2 e 3


Este texto foi escrito para o site E-Dublin, também publicado no jornal Cruzeiro do Sul.

Feira do intercambista ocorre nos dias 2 e 3

Evento é o mais importante da educação internacional no país

Contando com a representação de mais de 50 países e uma agenda repleta de atividades para quem deseja conhecer e realizar um intercâmbio, a 14ª Feira do Intercambista ocorrerá nos dias 2 e 3 de março, no Centro de Convenções Frei Caneca, em São Paulo.

O evento passou a receber este nome em 2013, sendo conhecido como Expobelta nas edições anteriores. É realizado anualmente pela Associação Brasileira de Agência de Intercâmbio (Belta) e terá como destaque para este ano a Espanha. "Essa é uma excelente oportunidade para apresentar a ampla oferta que temos neste segmento", explica Elvira Marcos Salazar, cônsul de turismo do país ibérico no Brasil. De acordo com a instituição, o país é o mais procurado por cerca de 70% dos estudantes que desejam aprimorar o espanhol.

A feira do intercambista contará também com a presença da Comissão Europeia e de escolas de idiomas de todo mundo. Países como Reino Unido, EUA, Colômbia, Canadá, França, Nova Zelândia, e até mesmo China terão representantes no local.

A edição de 2013 não sofreu reformulação apenas no nome, mas também em sua estrutura, buscando mais aproximação com o público. "Vamos trabalhar mais próximo do nosso público, conseguindo colocar à disposição o máximo de informação de qualidade para que ele possa escolher onde estudar no exterior", comenta Carlos Robles, presidente da Belta. A instituição divulgará uma pesquisa nos dias do evento com dados sobre os cursos mais procurados pelos brasileiros, além da classe social e idade desses estudantes.

Confira uma seleção das principais novidades que serão trazidas ao público na edição deste ano

- Presença da Universidade de Peking representando a China;

- Basque Culinary Center (Espanha), instituto que conta com uma Faculdade de Ciências Gastronômicas e um Centro de Pesquisa e Inovação em Comida e Gastronomia;

- Universidade Belgium Wallonia-Brussels Campus (Bélgica);

- Europa tem a Comissão Europeia de Educação, órgão que promover a educação da Europa;

- Escola de idioma da Colômbia, o Spanish World Institute, com custos acessíveis

- Instituiçoes que promovem o programa federal "Ciência sem fronteiras"

Outras informações e o cadastro para a feira podem ser obtidos no site 
www.feiradointercambista.com.br.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Matéria: "House" terminará em abril, após 8 temporadas de sucesso

"House" terminará em abril, após 8 temporadas de sucesso

A troca de atores contribuiu para repentina queda de audiência





Luiz Fernando Toledo
luiz.toledo@jcruzeiro.com.br  


O mais famoso e misantropo médico da televisão vai encerrar suas atividades em abril. Criado em 2004, por David Shore, a série médica da Fox - que também é transmitida pela Record, às quartas-feiras -, terá a oitava temporada como a última da série, conforme anúncio feito pelos produtores essa semana. Apesar de manter a audiência elevada, "House" registrou queda significativa de espectadores após sofrer mudanças drásticas no elenco e no roteiro. A saída da atriz Lisa Edelstein, que interpretava o par romântico de House, Lisa Cuddy, e as mudanças no quadro de funcionários do hospital Princeton-Plainsboro trouxeram grande impacto aos fãs da série.

Em mais de 150 episódios que foram ao ar desde o episódio piloto, "House" se destacou por romper com quaisquer que fossem os códigos de conduta médicos, preceitos éticos aceitos pela sociedade e moralidades intrínsecas a qualquer ser humano. O método "socrático" de trabalho em equipe de Gregory House (interpretado pelo ator Hugh Laurie) trouxe uma relação dialética entre os personagem que a ele se relacionavam. Odiá-lo, amá-lo, respeitá-lo ou ignorá-lo? Das quatro opções, somente a última era inevitavelmente descartada por sua equipe médica e seu único amigo, James Wilson.

A personalidade do médico desafiava o entendimento dos espectadores da série. Centenas de críticas e análises do personagem constam nas páginas da web, além de livros, que além de tratar do personagem, fazem questão de explorar a série em sua amálgama de questões pertinentes à filosofia e ética medica, ao mesmo tempo em que aborda temas comuns como o amor e a amizade.

O humor se tornou parte dos diálogos caricatos de House e seus pacientes clínicos, ou mesmo quando ridicularizava sua equipe médica. Enquanto discutiam um caso da septuagésima doença que poderia se tratar de "lupus", mas no fim não era, aproveitavam para ironizar a baixa estatura e o nariz grande do médico Taub, a bissexualidade de Thirteen e a afável filantropia do oncologista Wilson.

Mesmo para um observador externo, que assista apenas um dos episódios de forma descontextualizada, a reflexão introspectiva gerada pelos acontecimentos é inevitável. Despir-se das amarras de toda e qualquer decisão considerada comum é o primeiro passo para se integrar no universo de "House", em que qualquer atitude suspeita de um paciente pode ser considerada um sintoma. Um excesso de altruísmo por parte de um homem rico pode ser um sintoma. Respeitar o acordo de D.N.R (Do not ressuscitate, ou a "ordem de não ressuscitar") de um doente é opcional.

A religião teve espaço fundamental nas discussões da série. Apesar de enfatizar por diversas vezes o ateísmo do protagonista, David Shore tomou o cuidado de incluir minúcias que deixassem claro que nem mesmo o persuasivo médico das evidências fosse totalmente convicto da ausência de um deus, além de respeitar outras crenças ao longo do seriado.

O final da sétima temporada, estrondoso em seu desfecho de insanidade, abriu espaço para um final de série com um roteiro bem amarrado. Apesar dos poucos episódios que restam, saberemos em breve que fim levará o desumano mais humano da história da televisão.