sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A arte de enganar a si mesmo

Já conheci um pouco de bastante coisa. A música de Bach, a pintura de Frida Kahlo, o novo jogo do Playstation 3, o último filme de comédia romântica hollywoodiano que está no cinema. Para algumas dessas, é prestigioso dizer "eu conheço, eu aprecio". Para outras...Nem tanto.



Com o avanço da internet e da internet banda larga, o acesso à cultura está se tornando cada vez mais fácil. E com ele, o surgimento de centenas de "geniozinhos" espalhados pelo globo. Eles são pessoas que citam Nietzsche, Dostoiévski, Rosseau, que ouvem música erudita e rock alternativo, que conhecem o teatro espanhol e toda a literatura inglesa. Ah, é claro, tudo isso descoberto pela wikipedia e semelhantes. E eles se proliferam rápido. Em um piscar de olhos, ouvir uma música eletrônica virou blasfêmia. Ver um filme qualquer para se divertir virou fútil. Aliás, "futilidade" se tornou o carro-chefe das ofensas utilizadas pela geração de intelectuais mirins. (leiam o post "Futilidade?", do ano passado)


E o que o indivíduo comum - consciente de seu papel na sociedade, e querendo, como todos, se incluir num círculo de amizades - faz? Ele se encaixa, e da pior forma possível. Como? Ele passa a ouvir, assistir, ler e respirar tudo aquilo que é considerado "culto" por esse círculo que o envolve.E já não basta o fato de conhecer algo que provavelmente não vai gostar, engole o produto, obrigando-se a acreditar que a qualidade do mesmo é indubitável e intocável. Se ele não gostar, é ignorante. Se não aprovar, se não sentir prazer ao apreciar tal obra, é um inferior.

E não estou questionando a qualidade de nada citado anteriormente, ou qualquer outra. Mas o que é a arte? Ninguém faz algo que não gosta. Os muitos que criticam o fato de existirem "ovelhas" da mídia, que seguem as tendências de tudo que está na tv e no rádio, são os mesmos que se tornam escravos do que julgam "culto". E se é pra fazer o que não gosta só pra agradar os outros, que diferença faz se é com algo "inteligente" ou não? Nenhuma. É simplesmente uma grande hipocrisia para se elevar diante de outros. Não se come aquilo que não se gosta.




Apesar de gostar muito de livros e de conhecer estilos de escrita, uma das matérias que mais odiei no colegial foi literatura. E por quê? Simples, era obrigado a ler, e não levado a conhecer algo por vontade própria. Na escola, vivem lhe colocando na cabeça que você deve conhecer isso, isso e aquilo. Mas nunca perguntam se aquilo lhe agrada, se é isso que quer.

Nós precisamos entender que para tudo existe um equilíbrio. A vida não se trata apenas de estudar ou buscar as profundezas do intelecto. Mas também não é uma eterna bagunça. É um mesclado de ambos, na medida certa. Não se obriga a fazer o que não se gosta. É simples, e se todos pensassem assim, talvez as pessoas procurariam mais, por si só, pelos melhores filmes, pelas melhores músicas...Enfim, sem uma obrigação de se tornar um cidadão superior a ninguém, sem a prepotência de ser mais inteligente.

Que tal seguir o caminho que mais lhe agrada?

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Vivendo ao lado

A dor é relativa.


- Mãe, estou triste. Acabei de terminar com a Michele. Acho que não irei à escola amanhã.

- E eu com isso? - respondeu uma mãe zangada. - Mas é claro que você vai. Fica aí reclamando da vida por qualquer coisa. Enquanto você chora por um namorico de alguns meses, por que não vê que outras pessoas têm problemas muito maiores que os seus? Veja a Carmen. Perdeu o marido no acidente de carro, depois de 25 anos de casamento. ISSO É SOFRIMENTO! Vê se para de graça e vá dormir que amanhã, você irá pra escola SIM.

Diante de tal argumento, o filho se cala, e acaba se convencendo de que não tem motivo algum pra ficar triste.


[...]


- Poxa, hoje é natal e eu só ganhei uma camiseta, como sempre. Que porcaria! - dizia o menino. - Preferia não ganhar nada? Ou pior, não ter nem como se alimentar? Agradeça por ter uma casa para ficar nesse natal, por ter uma família, ter comida. Mal agradecido, olha que deus te tira isso tudo, hein? - retrucou o avô.

E mais uma vez a tristeza de um indivíduo desaparece em meio à reflexão dessa tal de "sentimento relativo".

Estes dois exemplos são clássicos da vida de cada um, e com certeza, sob tantas outras formas, já devem ter aparecido em nossos cotidianos. A velha mania de comparar refrigerante com vinho.

Nossos dias são cobertos de uma porção de sensações, que brincam conosco constantemente. Acordamos de mal humor, somos recebidos por um belo café da manhã e um sorriso de nossos pais, chegamos à escola e recebemos uma deprimente nota vermelha numa prova, recebemos uma promoção no trabalho, vemos tragédias na televisão que acontecem em todo o mundo, e até mesmo choramos com o filme ou a novela. O "vai-vem" é o que compõe quem somos. Alguns com mais problemas, outros com menos, e cada um lidando de uma forma com a sua situação.






Ninguém vive em estado absoluto de felicidade, bem como não há como viver em eterna depressão. Mas se o "bom" é tão agradavelmente recebido pelas pessoas, por que é que o "ruim" não é? Se ambos fazem parte do que somos, por que banalizar a tristeza? Não estou dizendo para vivermos infelizes, muito menos para procurar motivos pra sofrer. Mas impor um respeito ao que nos limita como ser humano. Entender o porquê da tristeza também é importante. Refletir sobre a própria existência, estabelecer autocrítica, mudar algo.

Não é porque "existem problemas piores", que o seu problema não é importante, que sua tristeza não deve ser levada em consideração. Se fôssemos pensar nessa lógica, ser feliz também não é possível, pois com certeza existem pessoas muito mais felizes o tempo todo, com vidas bem melhores do que a nossa. E não há psicólogo, ou seja lá quem for, que nos diga o que é forte o suficiente pra derrubar nosso ânimo, ou elevar o entusiasmo. É algo particular, individual. Um exercício de você, para você mesmo.

Coisas ruins acontecem, e sim, elas são importantes. Não existe nenhuma "relatividade de dor", nem nenhum parâmetro para isso. Devemos estar preparados pra tudo, e acima disso, preparados pra superar tudo. SUPERAR, e não negar a nossa realidade diante de outras ditas "piores".

Ser humano é sentir, existir, respirar, e viver o mundo que nos cerca.


A dor não é relativa.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O jogo social

Ao conversar com outras pessoas, conhecer novos ambientes e observar diálogos alheios, tenho parado para refletir. Entramos em cada situação engraçada, que nos impõe uma conduta falsa e um resultado mais falso ainda. O que seria do mundo social se as "mentirinhas" não existissem?



Para não confundir, vou exemplificar. Decidi, depois de alguns anos, voltar a festejar meu aniversário em casa, convidando amigos e fazendo um churrasco. afinal, era especial: 18 aninhos. Convidei até quem não quis, evitando problemas com "conhecidos". O curioso é que mesmo sendo abrangente nesses convites, se eu convidasse certos "conhecidos menos conhecidos"(passarei a chamá-los de CMC no texto), seria até estranho da minha parte, já que nossos relacionamentos resumem-se em "oi, tchau, boa noite".



No transporte escolar, tenho dois amigos, e o restante, CMC. Por que cmc? Por educação, o correto é comprimentá-los, desejar boa noite e outras coisas. A maldita socialização falsa que eu tanto desprezo. Acharia muito mais prazeroso entrar sem falar nada, e sair igualmente. Mas vêm nossos amigos da educação e criam termos pejorativos como "metido, arrogante", rotulantes dos que pensam como eu. Para evitar, faz-se o joguinho social. Quem é que quer ser tachado de coisas ruins pelos outros?

Fiz de tudo para convidar os dois amigos sem citar as palavras "festa" e "aniversário", para não constranger os não convidados. Mas não deu para evitar, em um momento ou outro acabei falando sem querer. E com os comentários e mais comentários, em algum momento eles captaram o meu desprezo. Uma sensação engraçada passava pela minha cabeça a todo momento que os via. Parecia que a cada vez que os olhava nos olhos, eu dizia "eu sei que você sabe da minha festa, e você não está convidado". Mas como eu disse, seria mais estranho se eu convidasse os cmc.

E o pior é que de vez em nunca, trocava algumas palavras com um ou outro dali. É o que costumo chamar de intimidade relâmpago. Você sabe da existência de alguém, mas nunca conversa. Por um acaso, passam alguns momentos dialogando, falam de tudo, mas no dia seguinte já se tratam na base do "oi-tchau" novamente. Acabava me dividindo...Quem é o "eu" que convida essa pessoa: o de todos os dias, ou aquele que já teve a intimidade relâmpago? E a sensação engraçada persistia. E foi um tormento. A cada vez que alguém me tratava bem ali dentro do transporte, eu me chateava. São conversas que ocorrem pelos olhos e não pela fala em si. Ambos sabem da situação, mas evitam comentar para não constranger.


Em outra situação...Pensemos em um casal. Ele a ama, e é recíproco. Noite de cinema, shopping e muitas mulheres bonitas passando. Ele passa pelos amigos solteiros e, apesar de não ter seu amor diminuído pela namorada, pensa: eu poderia estar com eles. Ele não olha para nenhuma, com medo da repressão dela. Mas ele quer. E o mesmo com ela. Ambos guardam tais desejos no mais profundo e inacessível canto da cabeça, e tentam não tirar mais de lá. Por quê? Não é mais fácil assumir que os dois são seres humanos e sentem atração pelo sexo oposto, independente de se amarem? Uma coisa é respeitar o namoro, outra é respeitar a si mesmo, e a seus "instintos".


Voltando a falar de amigos. Pegando carona em meu texto "O tempo destrói, o tempo transforma", imaginem agora um amigo que o tempo já apagou. Alguém, que apesar de ter tido um grande histórico de passeios, piadas internas e assuntos, hoje não passa de mais um que exibe uma foto em sua página de conhecidos no orkut(se é que ele está lá). Um dia vocês se encontram, e o constrangimento interno é inevitável. Ele está namorando, a irmã dele viajou pra Itália, ele arranjou um emprego na empresa que você sempre quis. Talvez vocês nem se lembrem direito do nome do outro. Mas o diálogo com certeza envolverá frases do tipo "que saudades, cara! por que não me contou todas essas novidades?" Á resposta é óbvia, mas não é ela que vem à tona: NÃO CONTEI PORQUE NÃO SOMOS MAIS AMIGOS, NOS AFASTAMOS E EU MAL LEMBRO DO SEU NOME. No lugar disso, temos: "pois é, cara...ando sem tempo, estou trabalhando muito, mas vamos marcar algo aí...manda um scrap lá no orkut...blablabla, abraço". O famoso "vamos marcar algo aí" já é marca registrada dos ex-amigos. E ambos a engolem como se fosse normal, mesmo que por dentro saibam que não vão marcar nada, em momento algum. Tudo em nome da educação e dos bons modos. Mas é assim mesmo, uma mentirinha aqui, outra mentirinha ali, e assim convivemos em grupo.


Às vezes me sinto mal por pensar assim, e garanto que muitos discordarão. Mas me resta perguntar: viver entre pessoas é viver mentindo? Quantas vezes por dia somos obrigados a inventar, aumentar, diminuir, esticar, puxar e inverter fatos, e até a nós mesmos para que não criemos problemas?







P.S: Agora sou colunista do site de Itu(www.itu.com.br), visitem minha página!

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

A dialética do ser

Calma! Não é um texto de filosofia, muito menos acadêmico. O que pretendo definir a seguir, é um pensamento que desenvolvi nas aulas de teatro, e que tem me ajudado a "aceitar" melhor as pessoas como elas são(ou tentam ser).

Em primeiro plano, vamos definir dialética.

A dialética pode ser descrita como a arte do diálogo. Uma discussão na qual há contraposição de idéias, onde uma tese é defendida e contradita logo em seguida; uma espécie de debate. Sendo ao mesmo tempo, uma discussão onde é possível divisar e defender com clareza os conceitos envolvidos. (http://www.infoescola.com/)

Simplificando, é a contraposição de ideias. Falar de um determinado assunto expondo claramente as várias facetas de tal.

Em uma história infantil, como Branca de Neve, temos o binômio bem x mal sendo mostrado de uma forma extremamente simples e bruta. A Branca de Neve, totalmente pura, e a Bruxa, totalmente má. Elas são as 'facetas' sendo mostradas de uma forma que não ocorre na realidade.Talvez essa forma de enxergar as coisas tenha um pouco a ver com o público alvo. Crianças são mais "puras", por assim dizer.

Já em Os Últimos Passos de um Homem(Deadman Walking), um dos filmes mais conceituados com o ator Sean Penn, o rumo é outro. O personagem central, Matthew Poncelet, é um assassino cruel, revoltado e complexo, que aguarda sua execução. Temos aqui um protagonista dialético. Com a mesma intensidade de "maldade" que Matt inicia sua história, ele se arrepende. A cada cena, fica a dúvida: "como é que ele vai reagir? Quem é esse personagem?"; A cada fala, uma interpretação diferente de suas atitudes e de seus objetivos.

Até hoje não sei dizer o que acho de Hannibal Lecter, o famoso psiquiatra canibal dos cinemas. Suas atitudes entravam em contraste o tempo todo com sua inteligência e habilidade para compreender, solucionar e surpreender. Um criminoso perigoso e sem escrúpulos? Um gênio? Não sei. É simplesmente uma personagem fascinante, e de grande complexidade. E desse, existem muitos no mundo do cinema, e por que não dizer no mundo real?

Parafraseando o personagem Dean Winchester(do seriado Supernatural): “Demons I Get, people are crazy“. A lógica nem sempre é inerente ao ser humano, nem a seus padrões. Entender a si mesmo é penetrar um mar às cegas, é respirar do pó e das cinzas de uma terra abatida e nebulosa.

Se entender a si mesmo é difícil, imagine o próximo. Pior então os que não estão tão próximos assim. Ninguém é formado por características inteiramente puras. Não somos desenhados, nem desenvolvidos por algum tipo de software. Cada um com seus defeitos e oscilações de temperamento. Ninguém consegue ser a mesma pessoa o tempo todo. Um dia tratamos todo mundo bem. Já no outro, queremos evitar conversa. Por um momento, tentamos socializar em todos os lugares, já em outro buscamos um canto para ficar só. Faz parte de nosso modo de ser, e devemos nos respeitar por isso.

Não seguimos padrões. Se entender o ser humano fosse fácil, não precisaríamos de psicólogos, psiquiatras, sociólogos e outros profissionais que dedicam a vida a entender um pouco dessa essência, desse complexo emaranhado de possibilidades e características pessoais que é reservado a cada um de nós. Ser humano vai além da compreensão. É simplesmente ser.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O tempo destrói, o tempo transforma


Mudando um pouco do padrão de minhas postagens mais recentes, deixo aqui mais uma "crônica" minha que discute os efeitos do tempo em nossas vidas, em nossos caminhos e em nossas escolhas. Espero que gostem. (:




Diálogo

E
o filho contava, com alegria, a seu pai - O Tempo - tudo que havia conseguido na vida até então...



Tenho vivido momentos incríveis, conhecido pessoas maravilhosas e cada precioso sentimento deste mundo. Não vejo como melhorar.

Meu namoro com a Andreia está uma maravilha, nunca brigamos, eu a amo de verdade, e é pra sempre. Não há nada que nos separe.


A faculdade está cada vez melhor. Meu curso é, sem dúvida alg
uma, aquilo que procurei para me realizar. Serei um biólogo dedicado quando me formar, e cuidarei do planeta como se fosse meu próprio corpo. Quero conhecer mais e mais, desvendar mistérios, viajar e descobrir novas culturas, ajudar pessoas. E isso nada vai mudar. Estou convicto de minhas ações futuras.

Tenho os melhores amigos que essa sociedade pode fornecer, me ajudam, me apóiam, e confio neles cegamente como se fossem de minha família. Não tenho nada a reclamar. Eles me fazem rir, me animam nos piores momentos, me completam tanto quan
to a Andréia. Não vejo como me separar deles. O que mais eu deveria extrair da vida?

O Tempo registrava cada expressão de seu filho, já prevendo o que viria a seguir, mas parecia não se animar com tanta positividade. Após ouvir tudo, começou a falar, com o mesmo rosto sombrio e seco, que antes prestava atenção ao filho...

Andréia não é para você, e o namoro logo chegará ao fim. Estará cansado dela. Vocês não devem ficar juntos. Ela te enjoa, ela te irrita, mesmo a menor das manias dela te corrói por dentro a cada instante.

Esse seu sonho de salvar o planeta, desista dele. Não vai te levar a lugar algum, e você só vai descobrir que quanto mais correr atrás, mais descobrirá da desgraça da humanidade. Mas não desanime, talvez encontre outra fonte para sua ânsia de descoberta e conhecimento. Quem sabe, algo melhor ainda.


Definitivamente, seus amigos te limitam. Eles te fecham em um mundo pequeno. Você não gosta deles, você enjoará fácil de tal companhia. Viajará e conhecerá pessoas novas, e a cada passo em sua vida, novas surgirão. E não se cansará de fazer novas amizades. Esse mesmo círculo se afasta a cada dia que se passa, a cada pensamen
to seu. Filho, você me obedecerá, e sem pestanejar, continuará a construir a sua trilha.

Apesar de infeliz, por ora, o filho ouve tudo e obedece sem perceber. A voz de Tempo não sai de sua cabeça, e ele vai continuar pensando de formas diferentes pelo resto de sua existência.

-


O passar dos anos destrói pensamento para colocar outros, em troca. Tudo aquilo que hoje, pode ser o melhor, talvez não signifique nada depois. É por isso que vagam tanto pelos clichês do carpe diem, viva o hoje, viva o presente, e etc.

A única coisa que o tempo não consegue modificar é aquilo que já passou, aquilo que ficou guardado. As lembranças não são mentiras, elas existem, e realmente aconteceram. Dizer que ama alguém hoje e não amar mais no futuro não é ser falso. É algo comum, que pode acontecer a qualquer um. Mudar de carreira, mudar de sonho, até mesmo mudar o estilo musical. Não é falta de personalidade nem falta de rumo. São opções que o tão citado tempo nos atribui de pouco em pouco. E o que nos resta, senão seguí-las?